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Por Arthur Soffiati

Manguezais do sul do Espírito Santo (final)

27.10.2020

Na primeira parte deste artigo, passamos em revista os manguezais do rio Itapemirim e das lagoas d’Anta, do Siri, Lagoinha, Pitas e Mangue. Terminamos agora com as lagoas da Tiririca, Boa Vista e Marobá, assim como o rio Itabapoana.

 

O manguezal da lagoa da Tiririca

Além de secionada pela ES-060, a lagoa da Tiririca teve o trecho entre a costa e a estrada aterrado em vários pontos para permitir a construção de casas e o acesso a elas por veículos motorizados. A barra se encontra fechada a maior parte do tempo. Sabemos que um manguezal sadio precisa receber o fluxo das marés. Nos fragmentos que restaram da lagoa, aparecem exemplares de mangue branco (Laguncularia racemosa), quase todos sob intensas condições de estresse. Há um pequeno trecho contínuo de manguezal junto à barra bastante adulterado por ação humana. A recuperação é possível, mas extremamente difícil e cara. A forma mais barata de recuperar um manguezal é remover tudo aquilo que impede seu crescimento e deixar a natureza trabalhar por conta própria. Mas a urbanização da barra da lagoa da Tiririca só se expande e se consolida.

Sinais de estresse no mangue da lagoa Tiririca

O manguezal da lagoa Boa Vista

Imagens de satélite revelam que o vale da lagoa Boa Vista, na verdade um rio que descia outrora da unidade de tabuleiro do sul capixaba, contava com grande área e extensão. Seu estado atual é lastimável. A larga faixa de praia mostra que sua barra está consolidada e certamente fechada há muito tempo, ainda que moradores tenham informado sobre sua abertura manual periodicamente. Nas cercanias da barra, o antigo traçado da ES-060 corre sobre a diminuta passagem para o fluxo das águas. Assim, no curso baixo, o antigo rio, obrigado a transformar-se em lagoa, apresenta-se dividido em dois grandes segmentos. O primeiro, da barra à rodovia, conta, ao que parece, tão somente com mangue branco, quase todos os exemplares apresentando raízes anômalas com sistema respiratório acima do nível da água em virtude da estabilização da lagoa. Um sistema aberto para o mar provoca a oscilação do nível da lâmina d’água. Ora enchendo ora esvaziando, o manguezal funciona normalmente. Sem a influência das marés ou com a lâmina d’água afogando as raízes respiradoras (pneumatóforos), as plantas desenvolvem mecanismos de adaptação e se tornam anômalas ou não resistem às novas condições e morrem. Outras plantas encontradas nesse manguezal não são exclusivas do manguezal, como o algodão (Talipariti pernambucense), o anel de senhora (Dalbergia ecastaphyllum) e o mololô (Annona glabra). Elas entram no espaço do mangue por serem oportunistas e indicarem mudanças na saúde do ecossistema.

O acúmulo de algas em primeiro plano indica eutrofização da lagoa de Boa Vista

A presença de núcleos urbanos e de atividades agropecuárias, traços encontrados ao redor de todas as lagoas desse trecho, produz nítida eutrofização (excesso de matéria orgânica). Falta a todas as lagoas, notadamente à da Boa Vista, a necessária sanidade para assegurar os processos normais da dinâmica dos manguezais.

O traçado definitivo da rodovia ES-060 cortou novamente a lagoa ao norte da primeira ponte, agravando mais ainda seu estado geral.

Rodovia ES-060 cortando área de manguezal na lagoa Boa Vista

Manguezal da lagoa de Marobá

Esse antigo curso d’água era o maior sistema fluvial entre os rios Itapemirim e Itabapoana, mas foi parcialmente barrado e transformado numa lagoa embrejada, conhecida também como brejo do Criador. O rio desemboca na praia de Marobá por barra periodicamente aberta. Muito mutilado, o sistema hídrico e o manguezal apresentam nítidos sinais de estresse causado por ações humanas. O manguezal que se desenvolveu junto à foz tem, na sua composição, mangue branco (Laguncularia racemosa), siribeira (Avicennia germinans), mangue vermelho (Rhizophora mangle), mololô (Annona glabra), anel de senhora (Dalbergia ecastaphyllum), algodão (Talipariti pernambucense) e samambaia do brejo (Acrostichum aureum). A dominância cabe ao mangue branco, com quase todos os exemplares desenvolvendo raízes anômalas. As transformações antrópicas das bordas estão permitindo a penetração de plantas invasoras, sobretudo de trepadeiras. Moradores deixam entrever que o manguezal perdeu o valor econômico, não existindo mais uma cultura construída em função dele, como, de resto, está acontecendo com os outros manguezais do sul capixaba.

Plantas invasoras no manguezal da lagoa de Marobá

Não há informações confiáveis acerca da presença ou não do caranguejo uçá (Ucides cordatus). De fato, a área inundável em que vive este crustáceo está permanentemente submersa. Diz-se que o guaiamum (Cardisoma guanhumi) tornou-se rarefeito. Tocas dele ainda são avistadas nas margens do mangue.

Ponte frágil sobre a lagoa de Marobá em época de cheia. As manilhas sob ela ou foram arrastadas pelas águas ou retiradas por ação humana

Secionado o córrego próximo à foz por uma estrada de terra batida, a comunicação sob ela efetuou-se por bueiros cilíndricos subdimensionados, o que afetou intensamente a vazão do curso d’água. Verificou-se que as manilhas foram suprimidas e o sistema está ruindo.

No estirão do córrego acima da ES-060, é visível a ação do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), que promoveu a canalização do curso d’água.

Trecho do córrego canalizado pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Legenda original “MOROBÁ – (vala). Trecho logo a montante do manguezal – 1938”

Manguezal do rio Itabapoana

O rio Itabapoana foi tomado como divisa entre Espírito Santo e Rio de Janeiro desde o século XVIII. Desenvolveu-se, no estuário dele, um manguezal pujante em tempos passados. Um relatório da extinta Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA), datado de 1980, já acusava a acentuada supressão de grandes partes do manguezal na margem direita do rio (RJ), causada pela expansão da Vila de Barra do Itabapoana, antiga São Sebastião. Notava também que a área mais protegida se situava na margem esquerda (ES), onde foram avistados altos exemplares de siribeira (Avicennia germinans) (FEEMA. Relatório técnico sobre manguezal. RT 1123. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente: Rio de Janeiro, 1980).

No relatório de Cláudia Vale e Renata Ferreira Diniz (“Os manguezais do Espírito Santo” (Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo/Departamento de Geografia, 1995), pouco se fala dele e mais uma vez aparece a confusão entre Avicennia germinans e Avicennia schaueriana. Aliás, seus autores não assinalam a presença de manguezais nas lagoas entre os rios Itapemirim e Itabapoana. Para biólogos e geógrafos, só os grandes bosques de mangue são considerados.

Estudo efetuado em 2004 mostra que os manguezais com áreas mais extensas no Espírito Santo são os da Baía de Vitória e dos estuários dos rios Piraqueaçu, São Mateus, Benevente e Itabapoana. O mesmo estudo afirma que a estrutura da floresta, troncos vivos e mortos, revelam a dominância de A. germinans e indicam que o manguezal do estuário do rio Itabapoana se distingue de outros manguezais do Estado do Rio de Janeiro, nos quais é geralmente maior a dominância de mangue vermelho e/ou de mangue branco (BERNINI, Elaine e REZENDE, Carlos Eduardo. Variação estrutural em florestas de mangue do estuário do rio Itabapoana, ES-RJ. Revista Biotemas 23 (1) http://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, março de 2010).

Em ambas as margens do rio, na altura de seu estuário, a urbanização avança sobre o manguezal. A substituição do ecossistema pelo núcleo de Barra do Itabapoana se processa de forma rápida e totalmente desordenada, a despeito de todos os esforços do Ministério Público e da Justiça em contê-la. Diga-se de passagem que o manguezal é, por enquanto, um ecossistema considerado Área de Preservação Permanente em toda a sua extensão pela legislação vigente, o que significa ser intangível, mesmo com a revogação recente de duas Resoluções do Conama que protegiam restingas e manguezais de forma mais restritiva. A consolidação do núcleo urbano não permite mais a recuperação do manguezal por conta própria.

E, com a urbanização, vêm outros problemas, mencionados no estudo de 2004: “Os sítios da margem direita estão sob maior influência de impactos (lançamento de efluentes domésticos, lixo, corte de vegetação, aterros, construção de estradas) em relação aos sítios da margem esquerda (presença de lixo e árvores cortadas). De fato, a maior parte do manguezal à margem direita do rio Itabapoana foi modificada pelo processo de urbanização e, atualmente, as florestas se restringem, principalmente, às margens de canais e às áreas sob influência das marés.”

Na parte fluminense, ainda existem algumas florestas de mangue remanescentes num trecho acima da foz, num bolsão próximo ao mar e num canal que parte do rio paralelamente à costa. A julgar pela amostra que se conserva no território capixaba, o manguezal contava (e em alguns trechos ainda conta) com altaneiros exemplares de Avicennia germinans (alguns com até 16,5 metros de altura), com uma boa população de Rhizophora mangle e com um extenso bosque de Laguncularia racemosa, a espécie dominante em quase todos os manguezais da área estudada.

Um estudo realizado entre 2010 e 2011 concluiu que a contribuição de Avicennia germinans e Rhizophora mangle é consideravelmente maior para a produção de serrapilheira total, o que indica a maior dominância e a densidade relativa dessas espécies na área. No período seco, A. germinans revelou maior produção de folhas, o que pode sugerir uma estratégia de economia energética com o fim de assegurar a dispersão das estruturas reprodutivas por ocasião do período chuvoso. Já R. mangle apresentou período de floração mais longo, o que favorece a polinização, como também produziu mais frutos durante a estação das chuvas, quando a oportunidade de dispersão é maior. A elevada taxa de produtividade associada ao bom desenvolvimento estrutural da floresta leva a concluir que os tensores antrópicos nesse manguezal não chegaram ainda ao ponto de afetar com intensidade a floresta da margem esquerda do estuário.

Por fim, para os objetivos desta investigação de história ambiental, o estudo revela que as estratégias reprodutivas observadas sugerem que o período chuvoso constitui o momento mais apropriado para a coleta de sementes (propágulos) destinados ao replantio de manguezais perturbados ou degradados, tendo em vista o aumento da oferta de frutos nesse período para as três espécies estudadas (CHAGAS, Tássia. Produção de serrapilheira ao longo do gradiente de inundação em florestas de mangue no estuário do rio Itabapoana. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2012).

Há, na margem capixaba do rio, um longo canal que parte dele e corre paralelo à costa, intrometendo-se curiosamente na zona da cobertura vegetal nativa de restinga: zona de vegetação herbácea, manguezal, zona de vegetação arbustiva, zona de vegetação arbórea, esta última hoje devastada. Os dois canais, um na margem esquerda e outro na margem direita, sugerem uma espécie de pequeno delta no passado, sobre o qual deu notícia o geólogo canadense George Frederick Hartt em 1870 (Geologia e Geografia Física do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941).

Ambos os canais, o da margem direita e o da margem esquerda, fluem ao sabor das marés, ora numa direção, ora noutra, atravessando trechos embrejados. O do lado fluminense está cercado pela vila. Aliás, para este canal, confluem outros menores por onde a língua salina penetra e cria condições para o desenvolvimento de mangue branco, mangue vermelho e siribeira, samambaia do brejo (Acrostichum aureum), guaxuma (Talipariti pernambucense) e mololô (Annona glabra). O do lado capixaba já começa a sofrer pressão. A grande ameaça ao manguezal começa a se avultar.

Aspecto do manguezal do rio Itabapoana na margem fluminense

Segundo pescadores residentes em Barra do Itabapoana, o manguezal cobria, outrora, uma área bem maior do que a atual. Aliás, este comentário é comum a todos os manguezais da região estudada. Os moradores conseguem correlacionar a remoção do manguezal à redução da pesca. Um deles afirmou ocorrer, junto à foz, o pitu e o lagostim. Pode-se avistar facilmente exemplares de uçá (Ucides cordatus) e de aratu (Goniopsis cruentata). Nas bordas do manguezal, em área seca, avistam-se tocas de guaiamum (Cardisoma guanhumi), aliás, cada vez mais sem espaço para cumprir seus processos vitais face à expansão urbana.

            Os grandes problemas a afetar este manguezal são o corte das árvores em vários pontos para crescimento urbano com habitações de baixa renda, o lançamento de esgoto doméstico e a disposição de resíduos sólidos. Apesar de tudo, é possível proteger uma boa amostra do manguezal remanescente no lado do Estado do Rio de Janeiro. Para tanto, torna-se necessário o ordenamento da expansão urbana, que deve ser contida junto ao ecossistema, quer na margem do rio, quer no canal que dele deriva, quer ainda nos canais secundários, inclusive com a transferência de habitações pioneiras que começam a criar novas províncias urbanas. O esgoto deve obrigatoriamente passar por tratamento no mínimo primário para subtrair-lhe a carga poluente. O lixo deve ter outra destinação que não as áreas de manguezal.

Estes fatores conjugados têm atuado sinergicamente para empobrecer a diversidade faunística (já não se pratica como antes a captura de uçá, guaiamum e siri), peixes, jacarés e aves rareiam. Quanto aos mamíferos, há sempre referências a guaxinins e gambás. Talvez ocorra ainda a lontra.

Para a extinta FEEMA, este manguezal deveria ser protegido em regime cooperativo entre os Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Enfatize-se, também, a importância de promover estudos sobre o referido manguezal e os impactos que vêm sofrendo de modo a melhor salvaguardá-lo.

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