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Por Arthur Soffiati

Um pequeno e desconhecido rio do Espírito Santo

06.11.2020

Hoje, não sabemos mais sequer o nome dos rios grandes, quanto mais dos pequenos. Existem buracos negros de conhecimento entre o rio Paraíba do Sul e o rio Jucu, já na grande Vitória. O antigo sertão de São João da Barra, hoje município de São Francisco de Itabapoana, continua sendo desconhecido até para seus governantes e moradores. Manoel Martins do Couto Reis, entre 1783-85, registrou o rio Guaxindiba em seu detalhado mapa, mas não o descreveu no seu relatório (Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785, 2ª edição revista e atualizada. Campos dos Goytacazes/Rio de Janeiro: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima/Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011). Maximiliano de Wied-Neuwied, em 1815 (Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp,1989), e Auguste de Saint-Hilaire, em 1818 (Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975), nada escreveram sobre ele. J. J. Tschudi, em meados do século XIX, hospedou-se na Fazenda São Pedro e ignorou o rio Guaxindiba (Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1980). Saint-Adolphe, também em meados do século XIX, registrou dois rios com esse nome: um na baía de Guanabara e outro no Espírito Santo (J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe. Dicionário geográfico, histórico e descritivo do Império do Brasil. Paris: Vª J. -P. Aillaud, Guillard e Cª, 1863). Todos pulam do Paraíba do Sul para o Itabapoana e desse para o Itapemirim. No máximo, nota-se a lagoa do Siri. Nada sobre os córregos de Manguinhos, Barrinha, Buena, Tatagiba, Guriri, Marobá, Boa Vista, Tiririca, Mangue, Pitas, Dantas.

Partindo do Itabapoana, chega-se ao rio Itapemirim. Deste, vai-se aos rios Iconha e Benevente. Um breve registro sobre o riacho Iriri foi feito pelo príncipe Maximiliano. Várias informações sobre os arredores de Benevente pela importância do seu porto para a economia de importação e exportação são deixadas por Saint-Hilaire (Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1974). Saindo de Benevente, Maximiliano de Wied-Neuwied alcançou Meaípe como se não existisse uma costa recortada e coberta de vegetação nativa entre ambos. Auguste de Saint-Hilaire ainda observou que atravessou florestas numa região montanhosa, já pontilhada com cabanas, até a aldeia de Meaípe. Nenhum naturalista europeu, incluindo Saint-Adolphe com seu célebre dicionário, anotou o pequeno rio Meaípe, junto ao qual, na margem esquerda, ergue-se a aldeia de pescadores.

O pequeno rio Parati, no Espírito Santo (agosto de 2011)

Hoje, o contexto histórico contribui ainda mais para o esquecimento dos rios. Se os povos indígenas batizavam todos eles, por mais insignificantes que fossem, os ocidentais nascidos na parte da América chamada Brasil, desbatizam até mesmo os grandes rios pouco a pouco, como escreveu Gilberto Freyre em 1937 (Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961). Esse fenômeno deve acontecer com outros países criados pelo ocidente fora da Europa. Até mesmo na Europa, ocorre esse esquecimento

Foz do rio Parati

O trabalho do historiador é, em parte, resistir ao esquecimento. Cabe a ele uma tarefa de arqueólogo, arrancando do solo, dos arquivos, da memória documentos e lembranças abandonados. Tem sido esse o meu trabalho como eco-historiador ou historiador ambiental. Passamos a toda velocidade sobre pontes e bueiros abaixo dos quais fluem cursos d’água. Alguns estão secos completamente o ano inteiro. Outros só fluem nas estações chuvosas. Alguns mais foram varridos para baixo do tapete, como o Anhangabaú, em São Paulo, canalizado e capeado. Ou como o córrego do Leitão, com igual sorte em Belo Horizonte (BORSAGLI, Alessandro. Rios invisíveis da metrópole mineira. Belo Horizonte: edição do autor, 2016).

Rio Parati na localidade de mesmo nome

Quando das chuvas torrenciais, leitos secos ou abrigando filetes de água poluída engordam com vigoroso fluxo que carregam pessoas, carros e casas. A imprensa apenas notícia que um rio encheu e matou pessoas. A televisão assesta a câmara para o local e informa que aquele rio (nome omitido ou esquecido) causou estragos ao encher. Se tiveram nomes no passado, até mesmo assinalados em placas já retiradas, hoje são somente rios, riachos, córregos, valas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio Parati na zona rural

Eis por que, partindo do rio Itapemirim a pé ou de carro, localizei cursos d’água diminutos até o rio Iconha e desse até o rio Benevente. Saindo do segundo em direção a Piúma, atravessei a costa acidentada que Saint-Hilaire registrou e notei, dentro de um carro que propositalmente andava devagar por conduzir um pesquisador, algo que parecia um riacho na extremidade oeste do lugar com nome de Parati, perto de Ubu, mais precisamente nas coordenadas 20°48’16” S e 40º36’15”. Fui até sua foz. A água corria para o mar. Pergunto-me se os viajantes europeus que por ali passaram no século XIX não o viram. A vasão deveria ser maior para não ser visto. Mas, com tanto rio expressivo, esse e outros não mereceram registro.

Estrutura abandonada no rio Parati

Subi seu curso dentro da área urbana. Ele estava fechado por vegetação plantada e emaranhada a ponto de esconder a água da visão. A rodovia ES-060 atravessa seu leito sem ponte. Apenas uma simples manilha permite que ele chegue ao mar.

Aspecto do manguezal do rio Parati (mangue vermelho)

Do outro lado da estrada, já se ingressa em área rural cercada com arame farpado e bois pastando. Lá, o riacho Parati (nome que lhe dei por desconhecimento de nomeação conhecida pelos moradores) esbarra numa estrutura de concreto abandonada indicando talvez a intenção de regular ou represar seu curso. A água se apresentava poluída e quase sem movimento.

O manguezal do rio Parati (mangue branco)

E o mais surpreendente foi encontrar nesse trecho, exemplares de mangue branco e vermelho em quantidade suficiente para caracterizar um pequeno manguezal. Em solo firme, na margem direita, grandes tocas revelavam a presença do caranguejo guaiamum. As condições mostravam-se adversas ao caranguejo-uçá (SOFFIATI, Arthur. Os manguezais do sul do Espírito Santo e do norte do Rio de Janeiro. 2ª edição revista, ampliada e atualizada. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2014).

Toca de guaiamum no rio Parati

Na verdade, não encontrei mais um rio, e sim fragmentos dele. Atividades rurais na parte alta do seu reduzido curso e urbanas no seu trecho final desfiguraram sua fisionomia. Tenho a intenção de retornar ao Sul do Espírito Santo em breve. Talvez eu não encontre mais o manguezal. Talvez eu não encontre mais sequer seus fragmentos. Terei vontade de afixar uma placa informado que ali existiu um rio.

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