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Por Arthur Soffiati

Os quatro elementos

11.11.2020

“Às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade: fogo e água e terra e do ar a infinita altura; e separado deles, o Ódio funesto, igualmente forte em toda parte, e o Amor entre eles, igual em comprimento e largura (...) deles (os elementos) provieram todas as coisas, o que era, o que é, e o que será, árvores e homens, assim como mulheres, animais, pássaros e peixes nutridos pela água, e também deuses, de longa vida, cumulados de honras. Pois sempre são os mesmos (os quatro elementos), mas, circulando uns através dos outros, tornam-se coisas diversas; tão grandes modificações traz a sua mistura.”

Empédocles de Agrigento, cerca de 450 a. C.

 

Ar

            Antes de Sócrates, viveram pensadores na Grécia que se dedicaram a compreender e explicar a natureza. Eram os físicos. Para a maioria deles, tudo o que existia no mundo resultava da combinação de quatro elementos: ar, fogo, terra e água. Atualmente, o ar é explicado de forma mais complexa. O ar que respiramos a cada minuto sem perceber é o nosso principal alimento. Podemos viver 45 dias sem comida (dizem) e 15 dias sem água (também dizem), alguns dias sem dormir, mas não podemos passar cinco minutos sem respirar. Que o diga o espírito do afro-americano George Floyd, que morreu pedindo para respirar.

            O ar, na sua atual composição, é produto de bactérias fotossintetizadoras. Antes delas, a vida aeróbica era impossível. Existiam apenas as bactérias anaeróbicas no fundo da água lamacenta, onde a radiação mortal do sol não chegava. As bactérias aeróbicas esconderam-se no fundo do mar e desenvolveram um sistema de alimentação que transformava a radiação solar filtrada em energia. Em troca, lançava oxigênio na atmosfera hostil. Esse gás foi se avolumando e criando a camada de ozônio, que filtrava a radiação ultravioleta e permitia que bactérias aeróbicas, seres unicelulares, dessem origem a organismos multicelulares, alcançassem a superfície dos oceanos e conquistassem os continentes.

            Em terra, os vegetais que saíram da água cresceram e acentuaram o processo de fotossíntese, retirando da atmosfera o gás carbônico e liberando o oxigênio. Estima-se que atmosfera atual tenha 21% de oxigênio em sua composição. Como se trata de um gás comburente, se o teor dele fosse menor, a vida não teria se desenvolvido tanto. Se fosse maior, o perigo de incêndios seria mais acentuado do que é atualmente.

            Desde seus primórdios, as atividades humanas afetam a atmosfera. O fogo produzido pelas sociedades hominídeas a partir de um milhão de anos só foi possível com a existência do oxigênio. Mas seu impacto sobre a atmosfera era pífio então. Os danos à atmosfera começaram com a invenção da agricultura e do pastoreio. As sociedades neolíticas que viviam delas usaram o fogo com mais intensidade, derrubaram florestas para abrir áreas a plantas e animais domesticados. Mas a atmosfera aguentou o tranco. Há quem já veja marcas de gás carbônico correspondente às sociedades neolíticas como a origem do aquecimento global atual. Elas não seriam levadas em conta se não fossem aumentadas pela civilização ocidental.

            As primeiras e as segundas civilizações também contribuíram significativamente para conspurcar a atmosfera que a natureza fabricou, mas as alterações não teriam sido notadas se não fossem adiante. Os principais fatores que contribuíram para alterar a atmosfera antes do ocidente foram o desmatamento e o fogo. A alteração significativa do ar começou com a economia de mercado e com a expansão da civilização ocidental. Esta economia vê a natureza como fonte de recursos e como lugar de descarte, ambos gerando lucros.

            Na fase de ascensão do ocidente, a partir da revolução industrial do século XVIII, na Inglaterra, o uso intensivo de carvão mineral como fonte de energia para a indústria começou a ameaçar perigosamente o ar. A vela, que já estava sendo queimada pelas duas pontas, recebeu mais fogo. Os oceanos e a vegetação nativa, que executam a magnífica operação de produzir oxigênio e absorver gás carbônico, passaram a sofrer impactos crescentes. Os oceanos foram poluídos. Atualmente, não cumprem mais, com eficiência, o papel ecológico de absorver carbono. As florestas sofreram uma redução drástica com a derrubada e o fogo.

            Demorou, mas chegamos num tempo em que as mudanças climáticas começam a se tornar insofismáveis. No início, só um grupo restrito de cientistas e ambientalistas acreditava nelas. Por que o modo de produção capitalista era capaz de extinguir espécies, poluir o ar, o solo e água e não era capaz de alterar a atmosfera? Grande parte dos cientistas se mostrou cética. Adotou postura negacionista quanto às alterações climáticas assim como aqueles que repudiam a ciência. E há ainda um reduto de cientistas céticos.

Os incêndios de 2019-20 na Austrália, Indonésia, Sibéria, Congo, Europa meridional, Califórnia, Amazônia, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga, Zona Costeira e Campos do Sul estão revelando, ano a ano, que o ar dos gregos antigos está cada vez mais quente, mais seco, mais favorável a incêndios e mais impróprio à vida. Há menos umidade nele. Abaixo de 60% de umidade, o ar afeta a saúde. Além disso, circulam no ar mais fumaça e mais fuligem. Ele também pode circular de forma violenta e provocar furacões e tufões. Acabo de ler agora a conclusão de que a economia causadora das mudanças climáticas começa a perder dinheiro com elas. Só em 2018, o aquecimento do ar causou a perda de 25 bilhões de reais no Rio Grande do Sul e no Paraná. Qual será a perda mundial em 2019-20? A reversão desta situação exigirá muito tempo para reversão ou será irreversível. Ouvir a ciência, como aconselha Greta Thunberg, não é mais suficiente embora necessário.

Água

            Depois do ar, a água é o segundo elemento mais essencial aos organismos aeróbicos. Se eles não podem ficar mais que alguns minutos sem respirar, podem, contudo, passar alguns dias sem água. Quanto a nós, humanos, dizem os cientistas que podemos prescindir da água por cerca de 15 dias. Nunca fiz esta experiência. Nosso organismo é formado por três quartos de água, assim como o planeta Terra.

            Antes que emergissem os organismos aeróbicos, a água já existia. Ela é formada por dois gases existentes na atmosfera: hidrogênio e oxigênio. Um átomo de hidrogênio e dois de oxigênio. A água sempre evaporou, mas não se decompunha no ar nos dois elementos gasosos de modo a oferecer oxigênio livre para mudar a atmosfera. Supõe-se que o oxigênio livre na atmosfera, antes dos organismos aeróbicos, existisse na proporção de 1%, teor por demais reduzido para formar uma camada de ozônio que filtrasse a radiação ultravioleta.

            Foi nas profundezas das águas oceânicas, compostas por dois terços de oxigênio, que bactérias protegidas da radiação solar desenvolveram esse milagre (para nós) denominado fotossíntese: alimentar-se da radiação solar filtrada pelas águas oceânicas, absorvendo gás carbônico e liberando oxigênio. A atmosfera original mudou e a vida aeróbica prosperou. A vida anaeróbica se escondeu na escuridão até hoje.

            Nunca direi que as bactérias aeróbicas criaram um mundo perfeito, mas construíram uma atmosfera espetacular para a vida dependente do oxigênio. Esse gás, ao combinar-se com a radiação ultravioleta, forma a camada de ozônio, composta por três átomos de oxigênio, que filtra a própria radiação letal à vida aeróbica.

            As plantas aquáticas e terrestres são as herdeiras diretas das bactérias aeróbicas. Elas também realizam a troca gasosa. Absorvem gás carbônico e liberam oxigênio na maior parte do tempo. Gerações e mais gerações de animais alimentaram-se do oxigênio livre nas águas (peixes com guelras) e no ar (anfíbios, répteis, aves e mamíferos).

            Nós, como mamíferos, dependemos muito da água. Os primeiros grupos humanos, em sua maioria, criavam assentamentos próximos a fontes de água doce. Como nosso organismo não dessaliniza a água, podemos encontrar assentamentos humanos junto ao mar, em praias e ilhas, mas sempre com água doce por perto. As sociedades neolíticas precisavam muito da água para regar plantas cultivadas e rebanhos de animais domesticados. As civilizações tiveram de lidar com o excesso ou com a escassez de água. Os sumérios lidaram com o excesso e tiveram de drenar brejos para conquistar terras. Os egípcios, ao contrário, enfrentaram a escassez e tiveram de irrigar terras desérticas a partir do rio Nilo.

            De todas as civilizações, a que lida com a água de maneira destrutiva é a ocidental, cujas raízes estão fincadas na Europa. De lá, ela saiu para conquistar o mundo e impor sua visão de mundo. Na concepção ocidental, a natureza é (ou era) inesgotável. Marx, que fez uma crítica radical do capitalismo, sistema nascido no ocidente, considerava a água como bem abundante. Junto com o ar, a água não poderia ser capturada pelo capital. A água transformou-se em mercadoria de diversas formas.

            No geral, não se bebe ou não se deve beber água bruta. Ela deve ser tratada e distribuída por redes. Não se deve devolver água servida ao ambiente sem tratamento. As empresas que tratam a água e o esgoto lucram com esse bem outrora considerado abundante. Observam elas que a cobranças é sobre o tratamento, não sobre o bem. Mas a água transformou-se em mercadoria monopolizada ou não.

            A água é usada para irrigação dos grandes empreendimentos rurais, agora chamados de agronegócio. O uso da água é descomunal. Retirada pontualmente de rios, ela é lançada a locais muito distantes. Voltam ao lençol freático contaminadas por fertilizantes químicos e agrotóxicos. São dispersadas de tal forma que os mananciais originais se tornam escassos para o atendimento a uma necessidade básica de animais e humanos, também animais.

            E a água de rios e lagos não é mais pura como antes. A economia a contaminou com esgoto, lixo e produtos químicos. Seu tratamento está se tornando cada vez mais caro. Dois terços dos rios do mundo estão barrados para a geração de energia elétrica, reduzindo a vasão e dificultando ou impedindo a circulação necessária de seres vivos aquáticos. As transposições não só reduzem vasão como também estão favorecendo a penetração de sal na foz. No rio Tejo, o sal já alcançou 70 quilômetros rio acima.

Água

            Depois do ar, a água é o segundo elemento mais essencial aos organismos aeróbicos. Se eles não podem ficar mais que alguns minutos sem respirar, podem, contudo, passar alguns dias sem água. Quanto a nós, humanos, dizem os cientistas que podemos prescindir da água por cerca de 15 dias. Nunca fiz esta experiência. Nosso organismo é formado por três quartos de água, assim como o planeta Terra.

            Antes que emergissem os organismos aeróbicos, a água já existia. Ela é formada por dois gases existentes na atmosfera: hidrogênio e oxigênio. Um átomo de hidrogênio e dois de oxigênio. A água sempre evaporou, mas não se decompunha no ar nos dois elementos gasosos de modo a oferecer oxigênio livre para mudar a atmosfera. Supõe-se que o oxigênio livre na atmosfera, antes dos organismos aeróbicos, existisse na proporção de 1%, teor por demais reduzido para formar uma camada de ozônio que filtrasse a radiação ultravioleta.

            Foi nas profundezas das águas oceânicas, compostas por dois terços de oxigênio, que bactérias protegidas da radiação solar desenvolveram esse milagre (para nós) denominado fotossíntese: alimentar-se da radiação solar filtrada pelas águas oceânicas, absorvendo gás carbônico e liberando oxigênio. A atmosfera original mudou e a vida aeróbica prosperou. A vida anaeróbica se escondeu na escuridão até hoje.

            Nunca direi que as bactérias aeróbicas criaram um mundo perfeito, mas construíram uma atmosfera espetacular para a vida dependente do oxigênio. Esse gás, ao combinar-se com a radiação ultravioleta, forma a camada de ozônio, composta por três átomos de oxigênio, que filtra a própria radiação letal à vida aeróbica.

            As plantas aquáticas e terrestres são as herdeiras diretas das bactérias aeróbicas. Elas também realizam a troca gasosa. Absorvem gás carbônico e liberam oxigênio na maior parte do tempo. Gerações e mais gerações de animais alimentaram-se do oxigênio livre nas águas (peixes com guelras) e no ar (anfíbios, répteis, aves e mamíferos).

            Nós, como mamíferos, dependemos muito da água. Os primeiros grupos humanos, em sua maioria, criavam assentamentos próximos a fontes de água doce. Como nosso organismo não dessaliniza a água, podemos encontrar assentamentos humanos junto ao mar, em praias e ilhas, mas sempre com água doce por perto. As sociedades neolíticas precisavam muito da água para regar plantas cultivadas e rebanhos de animais domesticados. As civilizações tiveram de lidar com o excesso ou com a escassez de água. Os sumérios lidaram com o excesso e tiveram de drenar brejos para conquistar terras. Os egípcios, ao contrário, enfrentaram a escassez e tiveram de irrigar terras desérticas a partir do rio Nilo.

            De todas as civilizações, a que lida com a água de maneira destrutiva é a ocidental, cujas raízes estão fincadas na Europa. De lá, ela saiu para conquistar o mundo e impor sua visão de mundo. Na concepção ocidental, a natureza é (ou era) inesgotável. Marx, que fez uma crítica radical do capitalismo, sistema nascido no ocidente, considerava a água como bem abundante. Junto com o ar, a água não poderia ser capturada pelo capital. A água transformou-se em mercadoria de diversas formas.

            No geral, não se bebe ou não se deve beber água bruta. Ela deve ser tratada e distribuída por redes. Não se deve devolver água servida ao ambiente sem tratamento. As empresas que tratam a água e o esgoto lucram com esse bem outrora considerado abundante. Observam elas que a cobranças é sobre o tratamento, não sobre o bem. Mas a água transformou-se em mercadoria monopolizada ou não.

            A água é usada para irrigação dos grandes empreendimentos rurais, agora chamados de agronegócio. O uso da água é descomunal. Retirada pontualmente de rios, ela é lançada a locais muito distantes. Voltam ao lençol freático contaminadas por fertilizantes químicos e agrotóxicos. São dispersadas de tal forma que os mananciais originais se tornam escassos para o atendimento a uma necessidade básica de animais e humanos, também animais.

            E a água de rios e lagos não é mais pura como antes. A economia a contaminou com esgoto, lixo e produtos químicos. Seu tratamento está se tornando cada vez mais caro. Dois terços dos rios do mundo estão barrados para a geração de energia elétrica, reduzindo a vasão e dificultando ou impedindo a circulação necessária de seres vivos aquáticos. As transposições não só reduzem vasão como também estão favorecendo a penetração de sal na foz. No rio Tejo, o sal já alcançou 70 quilômetros rio acima.

            Na estação seca, o solo está se tornando mais árido a cada ano. A umidade relativa do ar está ficando mais aguda, favorecendo incêndios. A água dos mananciais, já poluída, está escasseando. Os racionamentos estão se tornando frequentes. A corrida pela água se agrava e mostra que a natureza tem limites não reconhecidos pela economia vigente.

Terra

            Há mais terra na Terra do que água. Na escola, aprendemos que os oceanos ocupam ¾ do planeta, assim como o líquido no corpo humano ocupa a mesma proporção. Mas mergulhemos em águas rasas, doces e salgadas, e encontraremos terra no fundo. Mergulhemos nas fossas abissais com equipamentos, tripulados ou não. Encontraremos terra no final.  Nos profundos rios da bacia do Amazonas, esbarraremos em terra.

            Um dos quatro elementos dos pensadores físicos da Grécia antiga, conhecidos como pré-socráticos, terra é o elemento sólido, seja pedra, barro, areia etc. Se os outros três são água, ar e fogo. Depreende-se que terra, por exclusão, engloba todo tipo de sólido não-vivo natural. Mais espesso e volumoso que a terra, só o ar em seu sentido amplo. A espessura da camada atmosférica vai de 7 a 14 quilômetros. Em torno de todo o planeta, passando sobre a terra e o mar, sob o qual existe terra.

            Mas a água se espalha sobre a terra de modo variado. Não há lugar mais molhado que os oceanos, os mares e os rios. Mas, no meio dessa água, pode surgir terra em forma de ilha. E de novo podemos encontrar água nas ilhas em forma de lago, como acontece na ilha de Marajó, onde existe o lago Arari. Há terras com muita umidade, como na Groelândia, em que a água é sólida, na forma de gelo, em sua maior parte. As terras intertropicais costumam conter bastante umidade. Daí crescerem nelas luxuriantes florestas. Mas há terras muito secas, como o deserto de Atacama.

            E a água está no ar, em grande ou pequena proporção. O ideal, dizem os estudiosos, é que a atmosfera contenha, no mínimo, 60% de umidade em estado gasoso. Quanto mais desértica é a terra, menos umidade no ar. Pode acontecer, como vimos de sobra este ano, de ares úmidos tornarem-se ares secos. Então, entra em cena o fogo. Empédocles ainda é atual, mais de 2.500 anos depois de ter vivido: o mundo é formado por ar, terra, água e fogo. São os quatro elementos que, combinados pela força do Amor, geram todas as criaturas. Mas a força do Ódio as desintegra e deixa os quatro elementos disponíveis para uma nova combinação. 

            No presente momento, as atividades humanas na Terra têm liberado gases que se acumulam nas camadas mais altas da atmosfera e dificultam a fuga do calor. Presos, eles aquecem o ar, a terra e a água. Esse processo começou com a invenção da agricultura e da pecuária e prosseguiu com o advento das civilizações. Ninguém se incomodou com a elevação das temperaturas do ar, da água e da terra até a última década do século XX. Apenas cientistas e ambientalistas alertavam quanto ao seu perigo. Os mais críticos demonstravam que a economia originada no século XI europeu e difundida ao mundo todo a partir do século XV era a responsável pelo aquecimento. Empresários, governos e população de todos os países não acreditavam que a Terra estava esquentando. Nem mesmo a maioria dos cientistas.

            Agora, as elites estão se convencendo dessa elevação de temperatura. As geleiras estão derretendo, o nível dos oceanos está se elevando e avançando sobre a terra. A vegetação herbácea, arbustiva e arbórea dos continentes está carente de água. Esta aridez favorece a entrada em cena do elemento fogo. Se humanos que se importam apenas com seus interesses particulares, cortam essa vegetação e a incendeiam na estação seca, o fogo a consome e se alastra para a vegetação viva, mas também seca, como acontece na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga, no Pantanal, no domínio Atlântico e nos Campos do Sul. Ocorre também em biomas de outros países e continentes.

            A Terra e as terras estão cada vez mais ressecadas. Enquanto os oceanos avançam sobre elas, a água doce se retrai, como em muitos lugares do Brasil e do mundo, e a terra avança. Os processos de desertificação se intensificam. Há menos água no ar e na terra. Há mais calor no ar, na terra e na água.

            Os quatro elementos dos físicos gregos não se apresentam mais como Empédocles os concebeu. Para ele, a força do Amor os combinava e os transformava em plantas, peixes, aves, mamíferos, mulheres e homens. A força do Ódio levava esses seres à morte e os decompunha, deixando os quatro elementos livres para se recombinarem em seres diferentes.

            Os físicos da antiga Grécia viviam num mundo equilibrado apesar de devastações locais. Mas a civilização ocidental quebrou esse equilíbrio. Os elementos se combinam de forma destrutiva, e não mais por conta própria. Agora, um animal chamado humano, dentro de um sistema econômico, promove essas combinações de forma destrutiva. Água, terra e ar poluídos, rarefeitos. Árvores cortadas e queimadas. Florestas e outras formas de vegetação natural removidas para que as boiadas passem e se instalem. Esse é o mundo de hoje. Um mundo dominado por uma economia destruidora e autofágica.

Fogo

            Teorias recentes explicam que a Terra foi formada por fragmentos desprendidos do Sol em seu processo de rotação. Outros fragmentos que se giravam em torno do Sol foram capturados pela Terra. Embora o oxigênio fosse escasso nesse extremamente longínquo tempo, o calor do planeta era muito elevado, da superfície ao âmago.

            Os físicos repreenderão o uso de calor como sinônimo de quente, pois calor é um ramo da física que estuda temperaturas. Assim, frio e quentura são formas de calor. Reformulemos: na sua origem, a Terra era um planeta quente da superfície ao centro. Aos poucos, ela foi esfriando. A matéria incandescente foi se transformando em terra. O mais correto seria rocha, mas estamos seguindo os pensadores gregos pós-socráticos. As rochas são o elemento terra.

            A água é também um elemento físico composto quimicamente por um átomo de hidrogênio e dois de oxigênio. Já existia o ar, mas o teor de oxigênio nele era mínimo, insuficiente para a vida aeróbica. O nitrogênio predominava, como ainda hoje. Mas os microrganismos aeróbicos passaram a produzir oxigênio a partir da fotossíntese, a genial forma de alimentação a partir da radiação solar. Atualmente, a atmosfera compõe-se de 78% de nitrogênio e 21% de oxigênio, além de outros gases em escala reduzida. O vapor d’água integra o ar.

            Três elementos se apresentam de forma estabilizada: ar, terra e água. O fogo é constante no âmago do planeta. Na superfície, ele ocorre naturalmente pela combustão espontânea causada por ressecamento de matéria orgânica e raios. No início da sua aventura, os hominídeos, grupo zoológico do qual fazemos parte, colhiam o fogo na natureza. Como bem mostra o filme “A guerra do fogo” (1981), de Jean-Jacques Annaud, o fogo não era produzido por nenhum artefato. Os grupos hominídeos precisavam mantê-lo acesso permanentemente.

            Supõe-se que o hominídeo “Homo erectus” inventou técnicas de fricção para produzir o fogo. Foi talvez a maior revolução da história, pois permitiu a conquista de cavernas, o prolongamento do dia, a defesa contra animais, o endurecimento de pontas de lança e principalmente o cozimento da carne. Foi também uma revolução bastante democrática, na medida em que as técnicas e tecnologias para a produção do fogo são acessíveis a todos.

            Mas o domínio desse elemento passou a representar um grande perigo a partir da revolução neolítica, caracterizada pela domesticação de plantas e animais. Durante todo o longo paleolítico, as sociedades usavam o fogo para fins muito restritos. Ele podia escapar do controle dos grupos e se alastrar em incêndios em vegetação. Mas era raro. A umidade existente representava um fator limitante.

            Nas sociedades neolíticas, o fogo passou a ser usado sistematicamente para a remoção de vegetação nativa com a finalidade de abrir campos agrícolas e pastagens. Era comum perder-se o controle. Mesmo assim, havia resistências ao fogo na própria natureza. A umidade era a principal resistência. O emprego do fogo aumentou nas civilizações como arma contra a natureza e na guerra com outros grupos sociais.

            Nenhuma sociedade, porém, empregou mais o fogo que a ocidental. Antes mesmo de se expandir pelo mundo, o ocidente se revela um grande incendiário. Consta que o fogo ardeu durante sete anos na ilha da Madeira no século XV. Na colonização do Brasil, o fogo foi usado sistematicamente como arma para destruir a Mata Atlântica. Como os colonos alimentavam a síndrome da inesgotabilidade, parecia-lhes que a floresta jamais acabaria. Brasileiros e estrangeiros esclarecidos condenaram o uso indiscriminado do fogo para a abertura de espaços.

            Ele era e ainda é usado nas lavouras como meio de facilitar a colheita, a exemplo do que se verifica em canaviais. As altas temperaturas provocadas pela queima de folhagem matam os microrganismos responsáveis pela fertilidade do solo. O fogo faz de graça a tarefa de vários trabalhadores, mas destrói.

            Com a revolução industrial de século XVIII, os processos de queima se ampliaram. O carvão, o petróleo e o gás natural passaram a ser queimados. O gás carbônico derivado dos processos de queima passou a se acumular na atmosfera e a avolumar o efeito estufa, até certo ponto necessário para conservar calor no planeta. Se um lençol sobre a Terra é necessário, um cobertor e um edredom da aquecem em demasia. O aumento das temperaturas desregula o clima, provocando secas e chuvas excessivas. A vegetação nativa e plantada torna-se mais vulneráveis ao fogo.

            E hoje não é preciso mais friccionar pauzinhos sobre tábuas para gerar fogo. Um fósforo ou um isqueiro geram fogo instantaneamente. Com matéria orgânica vegetal morta e seca, o fogo se alastra mais rapidamente. No século XX, destruída a Mata Atlântica, a nova fronteira agrícola avança sobre a Amazônia e o Pantanal. Os interessados em ampliar ou conquistar terras ateiam fogo à vegetação aproveitando-se da estação quente e seca. O fogo se alastra e destrói a flora e a fauna. O boi não é bombeiro, como dizem produtores rurais e autoridades. Eles são, isso sim, beneficiários do fogo criminoso. Derrubada, fogo e pisoteio seguidos anuais não permitem que a vegetação nativa retorne ao estado do ano anterior. Assim, ela vai se extinguindo. Junto, vai a fauna. Resultado: empobrecimento dos biomas e da biodiversidade.

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