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Por Basílio Machado

O Babaca e o Negão

17.09.2020

Às vezes, estranhos sentimentos nos abatem. Lembro-me de quando fazia faculdade, anos 80, no Rio de Janeiro, e um negão, flanelinha, de sorriso largo, sempre guardava uma vaga pra mim. Pagava por mês, ou nem pagava, o que para nós deixou de fazer diferença. Com o crescimento da amizade, a gorjeta passou a ser apenas detalhe. A verdade é que, num local onde o furto de automóveis era comum, na minha moto ninguém mexia.

 

Numa noite de março, ao voltar das férias em Marataízes, depois de curtir o carnaval do Iate Clube e muitas baladas etílicas nos Xodó e ToaToa, percebi que o negão não estava lá. Ninguém sabia dele. Tomava o trem vindo do subúrbio, para trabalhar, e saltava na Central do Brasil. Era comum o noticiário da TV exibir imagens de jovens suburbanos sobre os vagões ou pendurados perigosamente nas suas laterais.

 

Até que um dia disseram-me que havia sofrido um acidente grave. Quase morreu. Não dei importância, afinal, havia sobrevivido. Passado um mês, ou quase isso, o negão reapareceu. Percebi, pelo nó na manga da camisa, que lhe faltava um braço. Não só o braço, seu olhar perdeu o brilho. No semblante, a áurea serena que o distinguia esvaiu-se. O sorriso largo ficou estreito. Quando o vi, pensei em não cumprimentá-lo, despistar, sei lá... Fiquei sem ação.

 

Queria que não tivesse de sentir pena dele, que não precisasse encará-lo frente a frente em sua miséria, que não me reconhecesse. Definitivamente, aquele negão não era o mesmo que me esperava todos os dias, com quem dividia a guimba do cigarro e o copo de cerveja depois das aulas, nos bares da rua Farani, em Botafogo, junto à juventude classe média que estudava na Santa Úrsula e na Facha. O trem havia nos roubado.

 

Percebi, então, que ele agia da mesma forma. Evitava-me, não mais me esperava, até fingia não me ver. Não sei se faltou a palavra que não consegui dizer, o aperto de mão, naquela que restou. Agia como um estranho, machucado. Notei um vazio naqueles olhos que miravam sempre os pés descalços, de solas grossas rachadas de asfalto, dedos achatados e unhas tortas. Forças distintas nos afastaram, o trem terminou o maldito serviço.

 

Talvez minha piedade contida e a humildade recolhida dele tenham sido mais fortes que nossa amizade. Quiçá tenha sido uma forma de preconceito profundo, de parte a parte, que tenha freado uma aproximação natural. Debati-me várias noites: por que nos afastamos quando mais precisávamos um do outro para entender a vida? Só ele poderia aliviar o sentimento amargo a me apertar o peito toda vez que o via.

 

Poderia dizer-me que estava tudo bem, que ia superar e tinha um futuro. Não o futuro que via em mim, já quase formado, e que não mais fazia parte de seu mundo. O negão me devia uma resposta, ou uma pergunta, sei lá! Seu silêncio me torturou. Que futuro poderia ter? Sem o braço. Antes, tinha esperança. Nunca mais nos vimos, mas sei que um pouco dele ainda anda comigo, e me assombra. Tomara que seja recíproco, ou fui apenas mais um babaca classe média que fingiu ser seu amigo e lhe virou as costas quando mais precisou.

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