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Por Arthur Soffiati

Manguezais do sul do Espírito Santo (I)

24.09.2020

Entre os rios Itapemirim e Itabapoana, desenvolveram-se três tipos distintos de vegetação nativa. A zona serrana e os tabuleiros eram cobertos pela Mata Atlântica em seu aspecto estacional semidecidual. Ela estava sujeita às oscilações de uma estação úmida e de uma estação seca. Daí o nome estacional. Na estação úmida, a mata vicejava em folhas. Na estação seca, ela perdia entre 20 e 50% das folhas. Daí ser semidecidual. Essa floresta foi dizimada, restando dela apenas algumas manchas.

Outro tipo de cobertura vegetal nativa é aquela adaptada a substrato arenoso de restinga. Os estudiosos a classificam como vegetação pioneira de influência marinha, pois ela se adapta a ventos fortes que transportam salinidade do mar para o continente. Este tipo de vegetação, no sul do Espírito Santo, concentra-se na restinga de Marobá, na margem esquerda do rio Itabapoana. Das três restingas da Ecorregião de São Tomé (ver primeiro artigo meu neste jornal), esta é a menor, mas de importância fundamental em termos de biodiversidade. No entanto, ela vem sendo destruída sistematicamente.

Finalmente, na foz marinha dos grandes e pequenos rios, onde o encontro da água doce com a água salgada forma estuários, os manguezais são a vegetação típica. As plantas de mangue navegam. A origem delas é o Sudeste Asiático. Dali, elas navegaram para norte e sul; para o leste e oeste, gerando novas espécies, todas elas adaptadas à zona entre marés dos rios e áreas protegidas da costa. O manguezal, enquanto ecossistema, está limitado pelos trópicos a norte e a sul, embora ultrapasse ligeiramente estes limites.

No sul do Espírito Santo, os manguezais não desapareceram por completo em virtude de sua resiliência. Se desarraigados, novas sementes (propágulos) flutuantes fixam-se na área propícia a elas e crescem. Mas existem ações humanas que podem impedir a autorregeneração dos manguezais, como o desenvolvimento de atividades permanentes em sua área ou o rompimento do equilíbrio entre água doce e salgada. Dependendo da composição do estuário, a área do manguezal pode ser aproveitada para atividades agropecuárias, como acontece na área de manguezal do rio Paraíba do Sul. A ameaça maior para as áreas de manguezal, contudo, é a urbanização. Núcleos urbanos crescem junto à foz de rios e impedem a recuperação natural do ecossistema. Em vários manguezais do sul do Espírito Santo, a urbanização desordenada ameaça os manguezais, embora, pela legislação vigente, eles sejam considerados área de preservação permanente em toda a sua extensão. Naqueles ainda não alcançados pela urbanização, a quebra do equilíbrio entre água doce e salgada em favor de uma ou de outra cria ambientes favoráveis à invasão de plantas de água doce ou favorecem a salinização excessiva do ambiente ou ainda barram o contato entre água do mar e do rio.

Os manguezais mais extensos no sul do Espírito Santo encontram-se na foz dos rios Itapemirim e Itabapoana por serem os maiores cursos d’água da região, embora enfrentem muitos problemas. As pesquisadoras Cláudia Vale e Renata Ferreira Diniz, no relatório “Os manguezais do Espírito Santo” (Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo/Departamento de Geografia, 1995) só reconhecerem estes dois por ainda apresentarem áreas de bosque. Porém, ocorrem plantas exclusivas de manguezal em riachos que deveriam contar com mais volume de agua doce no passado e formar estuários favoráveis a áreas mais extensas de mangue.      

Com a barra permanentemente aberta, desenvolveu-se um manguezal na faixa entre marés do rio Itapemirim, principalmente na margem esquerda, avançando pelo canal do Pinto (também chamado rio do Pinto pelos moradores). Ele foi aberto no século XIX para navegação entre os rios Itapemirim e Novo. Na margem direita, o manguezal está sendo cada vez mais limitado pelo crescimento de Marataízes. A espécie dominante é o mangue branco (“Laguncularia racemosa”), como na maioria dos manguezais em terras brasileiras. Além dele, ocorrem o mangue vermelho (“Rhizophora mangle”) e a siribeira ou siriba (“Avicennia germinans”).

A presença de espécies não exclusivas de manguezal indica desequilíbrio ambiental. Encontram-se ali o rabo-de-galo ou anel-de-senhora (“Dalbergia ecastaphyllum”) “Talipariti pernambucense, chamada de guaxumba pelos locais, a samambaia do brejo (“Acrostichum aureum), o mololô (“Anonna glabra”) e a aroeira (“Schinus terebinthifolius”). Percebe-se que a cultura pragmática e utilitarista dos habitantes da área do manguezal está se perdendo com a morte dos mais velhos. Os mais novos vivem da pesca marinha ou abandonam a área de manguezal em busca de outras atividades.

Margem direita do rio Itapemirim na foz. Notar a colina de tabuleiros desmatada, contribuindo para a erosão e o assoreamento

O manguezal da lagoa d’Anta

Cercada, esquartejada, invadida, a lagoa d’Anta transformou-se num córrego seccionado por ruas e sitiado por casas de baixa renda que lançam lixo e esgoto nela. Manilhas subdimensionadas permitem o fluxo d’água de maneira mínima sob aterros. Mesmo assim, a barra pode se abrir, seja por ação antrópica seja pela baixa energia das ondas. No único e melancólico fragmento de manguezal restante, não mais que dez metros quadrados de área, encontram-se alguns pés de mangue branco e de siribeira (“Avicennia germinans”), além de uma pequena população de guaxumba. Espécies invasoras mostram o grau de degradação do ecossistema. Uma das tentativas de sobrevivência do manguezal parece ser o grande número de filhotes (plântulas) de siribeira junto à árvore-mãe. Só medidas muito drásticas permitirão a recuperação deste manguezal, pois a urbanização de Marataízes no setor sul avança aceleradamente.

Bosque de mangue vermelho na lagoa do Siri. Ao fundo, colina com plantação de coco

Encaixados em depressão de tabuleiros, lagoa e manguezal (em forma de galeria) sofrem as consequências da supressão da vegetação nativa nas encostas para o plantio de abacaxi e de coco. A erosão concorre para o assoreamento do sistema e os insumos químicos provocam sua contaminação e eutrofização. Quanto à fauna, informações de moradores dão conta da ocorrência de camarão, pitu, siri, guaiamum e aratu. Consta haver ainda jacarés de papo amarelo, algumas poucas capivaras e lontras. Peixes de valor comercial povoam o ecossistema, embora os habitantes do seu entorno sejam unânimes em afirmar o declínio das populações. “A lagoa do Siri não é mais a mesma”, comentam eles. O uçá, o mais conhecido caranguejo do mangue, não existe mais na lagoa, pois ela não sofre mais o ciclo normal das marés.

 

Manguezal da Lagoinha

O sistema hídrico denominado Lagoinha situa-se imediatamente ao sul da lagoa do Siri. Como todas as lagoas localizadas entre os rios Itapemirim e Itabapoana, a Lagoinha tem seu leito encaixado numa estreita, mas razoável, depressão de tabuleiros. Havia um manguezal em sua barra, pois foram encontrados nela um saudável exemplar de mangue branco e várias mudas (plântulas) jovens desta espécie e de mangue vermelho. Entretanto, todo o sistema foi de tal forma mutilado que só se pode falar dele por suposição.

Diretamente, a lagoa foi barrada em vários pontos de seu leito. O trecho final do antigo córrego foi cortado pela rodovia ES-060, com diminuta passagem para a água sob ela, e represada por um particular. A partir desta represa, seu curso foi desviado e reduzido a um filete d’água. Quase chegando ao mar, há uma nova represa com estreito escoadouro por onde a água jorra e forma uma pequena bacia que ainda tem força para romper o cordão arenoso que a separa do mar quando o volume d’água se adensa.

Trecho da Lagoinha completamente descaracterizado ecologicamente

Trecho de manguezal bem conservado no canal do Pinto, margem esquerda do rio Itapemirim

 

O vale do rio fica embutido numa depressão de tabuleiros, com alguns afloramentos rochosos. Tal situação limita a área em que o manguezal pode se expandir, forçando-o a um desenvolvimento em forma de galeria. Das elevações adjacentes, foi removida a vegetação nativa para o avanço da agricultura. A falta de uma cobertura florestal favorece a erosão e o assoreamento do rio.

Na foz, pela margem direita, foi construído um longo espigão de pedra que, segundo alguns pescadores, contribuiu para assorear a barra. Segundo outros, torna-se imprescindível para assegurar a integridade da margem esquerda, junto ao estuário.

Nota-se claramente o despejo de esgoto e lixo, além do óleo derramado por barcos a motor que ancoram no interior do rio, junto às ruínas de um depósito de café e de um atracadouro de pedra do tempo em que navios de médio calado conseguiam cruzar a barra, conforme mostra desenho esboçado pela princesa Teresa da Baviera, naturalista que visitou vários pontos do Brasil no fim do século XIX.

Manguezal excessivamente perturbado da lagoa d’Anta

Manguezal da lagoa do Siri

De todas as lagoas alongadas entre os rios Itapemirim e Itabapoana, antigos córregos embutidos em tabuleiros e que foram barrados por cordões arenosos, a lagoa do Siri é a segunda em área. Tudo indica que se desenvolveu nela representativo manguezal com a entrada de sementes quando da abertura natural da barra pelas cheias ou por força do mar. A rodovia ES-060 cortou-a próximo à barra com uma ponte que permite a continuidade da lagoa em ambos os lados da estrada. Na seção barra-estrada, existem restaurantes na área de preservação permanente da lagoa com boa procura por veranistas, sobretudo em fins de semana e no verão.

 

Encontram-se escassos exemplares de mangue branco, guaxuma, chamada localmente de algodão, e rabo de galo, conhecida pelos moradores como anel de senhora (“Dalbergia ecastaphyllum”). A montante da estrada ES-060, há uma significativa população de mangue vermelho (“Rhizophora mangle”) ainda em bom estado. Trata-se de um magnífico bosque monoespecífico cujas raízes ficam submersas na maior parte do tempo, descobrindo-se apenas quando a barra é aberta manualmente. Para sobreviver, árvores desenvolveram poros respiradores (lenticelas) acima do nível d’água.

É de se estranhar que os estudiosos ignorem esse manguezal. Como explicar a dominância do mangue vermelho? Talvez a estabilização do nível d’água da lagoa durante períodos muito longos tenha funcionado como fator de seleção de espécies vegetais, eliminando aquelas que obtêm oxigênio por raízes respiradoras que emergem do solo, como o mangue branco e a siribeira. Talvez a redução da salinidade seja mais favorável ao mangue vermelho. A resposta cabe aos pesquisadores, que não têm se interessado por esse manguezal.

Na parte alta da margem esquerda, alguns exemplares de mangue-de-botão (“Conocarpus erectus”) se desenvolvem. Esta espécie não-exclusiva de manguezal, pode indicar salinidade alta. Entre os rios Itapemirim e Macaé, ela só é encontrada, com certeza, nas lagoas do Siri e do Açu.

As margens da lagoa foram escalpeladas, com a remoção da floresta nativa para ceder lugar a atividades agrícolas, sobretudo no seu curso superior. A erosão continua operando e assoreando o sistema hídrico. Para seu interior, correm também insumos químicos usados na agropecuária. As sucessivas barragens dulcificaram suas águas e favoreceram a proliferação de espécies invasoras. Não se exclui também a possibilidade de aquecimento pelo sol das águas represadas. Há, portanto, um conjunto de tensores atuando para criar um intenso estresse crônico desfavorável à existência de um manguezal.

O estado geral de Lagoinha coloca-a entre as lagoas que ainda conseguem sustentar potencialmente um manguezal e as que, muito adulteradas, perderam este ecossistema. Por correr paralela e muito próxima da lagoa do Siri, grandes são os indícios de que um manguezal se estendia de sua foz até a altura correspondente em que ele se alastra na lagoa do Siri atualmente. Não há elementos seguros para sustentar a conclusão de que os parcos exemplares de mangue branco e de mangue vermelho, a maioria em estado de filhote (plântula), formem uma amostra remanescente do manguezal. Eles podem perfeitamente indicar um manguezal em formação.

 

Manguezal da lagoa das Pitas

Além de barrada pelo mar, a lagoa das Pitas foi secionada pela rodovia ES-060, havendo uma comunicação subdimensionada por uma manilha entre as duas seções. A montante da estrada, a manilha estava aberta. Porém, a jusante, a mesma estava quase toda entupida por um desmoronamento. O acertado, no caso dessa lagoa, é a construção de uma ponte, como, de resto, nos demais casos de lagoas cruzadas por estradas. Bastante antropicizado, o manguezal da lagoa das Pitas foi reduzido a uma faixa ciliar, como em vários outros. As técnicas inadequadas de uso do solo, ou exposto ou revestido de lavoura plantada sem curva de nível, estão contribuindo para a erosão, para o aporte de sedimentos para o interior do sistema e para seu assoreamento. Há sinais de eutrofização da lagoa.

                                                                            

As espécies vegetais mais encontradas, junto à barra, são o mangue branco, o mangue vermelho, o algodão (“Talipariti pernambucense”), o anel de senhora e o mololô (“Annona glabra”). Não foi encontrada, neste trecho, a siribeira. Avistou-se o caranguejo aratu (“Goniopsis cruentata”), segundo um informante local, não capturado para consumo. O guaiamum (“Cardisoma guanhumi”) é capturado com as chamadas ratoeiras fabricadas com latas de óleo de cozinha ou criado para consumo ou para comercialização. As características da lagoa não são mais favoráveis ao caranguejo uçá.

Lagoa das Pitas embutida em vale de tabuleiros, limitando a expansão horizontal do manguezal. Nas margens inclinadas, ausência de matas nativas e agricultura praticada incorretamente, fontes de erosão e assoreamento

Manguezal da lagoa do Mangue

Trata-se de outra lagoa de tabuleiros barrada pelo mar e pela rodovia ES-060, embora provida de comunicação mínima sob a estrada. Este segundo obstáculo é um grande responsável pela redução da capacidade da água em romper a barra, juntamente com possíveis barragens e drenos a montante.

 

Apesar do nome, a lagoa conta com um reduzido manguezal constituído de mangue vermelho, demonstrando grande capacidade reprodutiva pela imensa quantidade de filhotes (propágulos). O mangue branco também está presente, funcionando como espécie indicadora de estresse. O estressor mais provável parece ser a estabilização do nível d’água, afogando as raízes respiradoras. A forte antropicização do manguezal permite a penetração de espécies invasoras, principalmente um expressivo número de trepadeiras.

Lagoa do Mangue: exemplares de mangue vermelho, também conhecido como mangue verdadeiro

 

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