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ACERVO PERDIDO DE ANCHIETA

Por José Amaral Filho

05.09.2018

 

Dando continuidade às lástimas pelo abandono que culminou com a queima quase total do acervo do Museu Nacional fica necessário levantar outro ponto que faz com que nossos bens móveis desapareçam aos poucos, longe das vistas, do interesse da imprensa e da sensibilidade da população que é furto de obras de arte, em sua maioria sacra, que compõem os acervos de monumentos tombados. O Espírito Santo é o estado que possui um dos menores números de bens tombados pelo IPHAN, apenas 14, sendo que desse total 12 são bens imóveis – prédios e edificações, e 2 bens móveis – imaginária e obras de arte. Esse baixo número evidencia certo descaso com a cultura capixaba por parte dos órgãos federais, cuja alegação para se desculpar pelo descaso é a falta de pessoal e pouca estrutura no Espírito Santo que só passou a ter sua superintendência em 2004. Até então estava ligado ao Rio de Janeiro.


Mas muito pouco aconteceu em favor ao nosso patrimônio já tombado, principalmente no que diz respeito a segurança dos nossos museus e igrejas históricas. Esse pouco investimento implica em uma série de furtos de obras de arte devido a facilidade que as quadrilhas especializadas nesse tipo de crime encontram, pois o mercado negro dessas obras é avido e paga altos preços pelas peças. No site do IPHAN – iphan.gov.br – constam 30 bens procurados, ou seja, que foram furtados no Espírito Santo. Temos mais bens furtados que tombados.


Praticamente nenhuma das unidades tombadas abertas a visitação pública conta com um sistema eficaz de segurança e vigilância. Um dos exemplos mais atuais e marcantes foi o furto do relicário de prata que guardava a relíquia de São José de Anchieta, pouco antes de sua canonização. Os ladrões tiveram a oportunidade de levar o pedaço de sua tíbia, única relíquia dele no Espírito Santo, mas provavelmente, pela singularidade da peça, até mesmo os traficantes de obras de arte e bens históricos ficariam com medo de adquiri-la. Então se contentaram com o caixa de prata que a guardava. Mas, o mais grave disso é que evidencia a fragilidade de nossos museus, pois nenhuma das câmeras de segurança estava funcionando e o bem só foi inserido no rol dos procurados mais de um ano após o furto. Além do relicário, o museu e Santuário tiveram ainda mais sete bens furtados que são quatro castiçais de bronze do século XIX, três coroas de prata de 15 cm cada, uma imagem de Nossa Senhora do Rosário em madeira policromada do século XIX, uma imagem de São José de Botas em madeira policromada do século XIX, uma custódia de prata de 40 cm de altura e pesando 3 Kg. Parece até aquele adágio popular: onde passa boi passa boiada. E o Museu Nacional de São José de Anchieta, mesmo sendo vinculado a duas poderosas instituições, o IPHAN e a Igreja Católica não recebe a mínima atenção.


Além do acervo sob proteção do IPHAN e da Igreja, a cidade de Anchieta também possui um grande acervo de peças, essas não tombadas, mas de grande valor histórico que vão de obras de arte, utensílios domésticos, ferramentas e documentos históricos que se encontra em grande risco. No ano de 2003 foi catalogada e inventariada uma série documental da Câmara da Vila de Benevente dos anos de 1843 a 1947, totalizando aproximadamente 600 documentos, sendo sua maioria correspondências entre o palácio da Província do Espírito Santo e a Câmara de Benevente que também se encontra desaparecida. Nessa documentação, que era guardada na Casa da Cultura de Anchieta, existiam raras referência as ações da Junta Classificadora de Escravos, criada a partir da promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871, que tinha como objetivo dar alforria a mães escravas que tinham filhos a partir daquela data. Na documentação haviam chamados para reuniões da JCE bem como listas de beneficiados pela lei.
Nenhuma peça desse acervo, tanto as imagens, adornos, relicário, objetos sacros e documentos se perdeu em um incêndio de grandes proporções, eles sumiram como num passe de mágica, por isso nunca despertaram a comoção pública e nem mereceram as páginas dos jornais e os horários de TV.

 

 

 

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José Amaral Filho

É Historiador, formado pela Faculdade de Ouro Preto, MG

 

 

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