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Por Arthur Soffiati

O Holoceno e as jararacas

20.08.2021

Se uma ilha pequena tem cobras venenosas, a postura antiga mas ainda vigente é: 1- não frequente essa ilha para não ser picado; 2- matemos todas as cobras. Nós, humanos, temos direito de praticar turismo nessa ilhota. Cobras devem morrer, venenosas ou não. Cabe ainda a pergunta: como essas cobras vieram parar aqui? Nunca soube que cobra nadava tanto para chegar numa ilha não muito distante da costa, mas, mesmo assim, longe para uma cobra. E seria necessário que um casal nadasse para procriar. Será que alguém trouxe um casal para cá? A postura mais nova, porém ainda restrita a cientistas e pessoas mais esclarecidas, consiste em estudar formas de proteger a espécie.

Na ilha dos Franceses, ao sul do Espírito Santo e na costa do município de Itapemirim, foi encontrada uma espécie até pouco tempo desconhecida de jararaca. Costuma-se dizer que uma espécie desconhecida da ciência é uma espécie nova. Na maioria dos casos, a espécie é mais antiga que a do próprio Homo sapiens. Ela estava vivendo em  seu cantinho quando as pessoas simples e as pessoas preparadas (cientistas) a encontraram. Quando encontradas, espécies desconhecidas costuma já estarem ameaçadas de extinção.

A jararaca encontrada foi batizada de Bothrops sazimai. Ela é parente de outras espécies de jararacas que vivem em ilhas, como a jararaca-ilhoa (Bothrops insulareis), na ilha de Queimada Grande, no litoral paulista, a jararaca-de-alcatrazes (Bothrops alcatraz), nativa da Ilha de Alcatrazes; e a Bothrops otavioi, da ilha Vitória. A sazimai é a menor delas. Todas as quatro espécies desenvolveram veneno mortal e rápido para caçar suas presas. Que os humanos não se incluam entre essas presas. Cobras não têm consciência de que existem e do que fazem. Foi a seleção natural que as dotou desse veneno, mais voltado para aves a fim de que morram antes de voarem para morrer longe dali.

Podemos intuir por que existem tantas ilhas como o nome de Francês ou Franceses na costa do Brasil. Existe uma no arquipélago de Santana, em frente à foz do rio Macaé. Subindo a costa e passando a foz do rio Itapemirim, encontramos a ilha dos Franceses. No século XVI, os portugueses enfrentaram como ameaça talvez maior que as cobras e os povos nativos a presença dos franceses, que se sentiram excluídos da partilha do mundo entre portugueses e espanhóis pelo tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Uma linha vertical e reta dividia o mundo de polo a polo entre os dois países ibéricos. O rei da França declarou desconhecer no testamento de Adão alguma cláusula que partilhasse o planeta entre portugueses e espanhóis, e que a França era também filha de Deus.

Os franceses frequentaram muito a costa do Brasil para obter pau-brasil. Seus contatos com os nativos foram mais eficientes que os dos portugueses. Não sendo “donos” do Brasil, eles desenvolveram táticas bem-sucedidas de contato, aprendendo as línguas da terra e fazendo alianças. Conhecidos em tupi por “mair”, os franceses tentaram fundar duas colônias no Brasil: uma na baía da Guanabara, no século XVI, e outra no Maranhão, no século XVII. Foram expulsos nos dois casos e acabaram por se fixar na Guiana, até hoje integrante do Estado francês. Para se protegerem dos ataques portugueses, os franceses costumavam se refugiar em ilhas. Daí, tanta ilha do Francês ou Franceses nas costas do Brasil.

A jararaca Bothrops sazimai foi mais discreta. Ela deriva da jararaca continental. Nunca pensou em colonizar ilhas com suas parentas. O Holoceno, época geológica em que vivemos é que provocou processo seletivo nas quatro jararacas insulares. Antes, no Pleistoceno, o nível do mar era bastante mais baixo que o atual. As ilhas costeiras eram partes altas do continente. Em torno de 11.700 anos antes do presente, a Terra começou a esquentar. Não era um aquecimento como o atual, provocado por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, mas derivado de fatores naturais. As geleiras derreteram e a água em estado líquido fluiu para os mares. O nível subiu e as partes baixas da linha costeira ficaram submersas. O mar invadiu os rios. No Paraíba do Sul, uma área continental antiga foi dissolvida. O mar também avançou no rio Itapemirim.

As partes altas do continente transformaram-se em ilhas. Várias espécies vegetais e animais ficaram prisioneiros dessas ilhas. O mar baixou a partir de 5.100 antes do presente, mas não a ponto de incorporar todas as ilhas costeiras. Assim, elas continuaram como ilhas. Muitas se transformaram em refúgios. O isolamento levou espécies continentais a se adaptarem às novas condições e a darem origem a outras espécies. O arquipélago das Cagarras, na costa de Ipanema/Leblon está protegida de forma especial pela vida marinha e continental. O arquipélago de Santana, em Macaé, merecia também ser estudado com o fim de proteção especial.

Agora, a pequenina ilha dos Franceses, medindo apenas cerca de 15 campos de futebol e situada a menos de quatro quilômetros da costa, está sendo estudada por pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). A B. sazimai foi batizada com esse nome em homenagem ao herpetólogo (estudioso de cobras e lagartos) Ivan Sazima. Ela se alimenta de lacraias, lagartos e anfíbios.

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Bothrops sazimai. Foto: Ricardo Sawaya

Os estudiosos entendem que a jararaca deve ser classificada como “criticamente ameaçada de extinção”, por só ocorrer na ilha dos Franceses, frequentada por um turismo informal que pode perfeitamente deixar de existir sem afetar a economia de Itapemirim e do Espírito Santo. O melhor destino para a ilha é sua transformação em reserva para proteger a serpente. Se continuar a ser frequentada por humanos, há o risco de acidentes. Mas as serpentes correm mais risco de vida. Humanos existem em todo o mundo. A B. sazimai só existe na pequena ilha dos Franceses e não fugirão dela para atacar pessoas no continente. A proteção da ilha deve ser motivo de orgulho para Itaipava, Itapemirim, Espírito Santo, Brasil e mundo.

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Ilha dos Franceses

E aproveito a oportunidade para defender mais estudos sobre o Holoceno no hemisfério sul, não tão estudado como no hemisfério norte. Nos dez mil anos de Holoceno, a humanidade domesticou plantas e animais, criando a agricultura e o pastoreio, inventou a cestaria, a cerâmica, a metalurgia, as cidades, a escrita, a divisão da sociedade em classes, a riqueza e a miséria, a revolução industrial. Fez avançar a ciência, mas criou ambiente para a disseminação de organismos patogênicos, como o vírus da Covid-19. Gerou crises ambientais locais e reversíveis, assim como a inédita crise ambiental global da atualidade. O Holoceno viu tudo de bom e de mau que a humanidade pôde criar. 

Lembro também a necessidade de estudar mais as ilhas costeiras, como a que se encontra ligada ao continente por um pier e outra um pouco mais distante em frente à foz do rio Itapemirim. Elas podem guardar surpresas. 

 

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